concurso #meuprediofavorito 1

O instagram é uma das redes mais interessantes hoje justamente por conseguir trazer para perto pessoas com gostos parecidos dos seus. Se o facebook divide, o instagram reúne. Não consigo medir quantos amigos fiz por lá.

Diante disso, me perguntei qual seria uma tag relevante para os arquitetos e amantes da arquitetura no Brasil e qual concurso motivaria o uso dela. O #meuprediofavorito surgiu assim, desse desejo de reunir. E para premiar a melhor foto, apostei na compra de um livro do maior arquiteto brasileiro vivo, o Paulo Mandes da Rocha. 

A partir dessas premissas, lancei o concurso no dia 22 de maio de 2016.

A reação ao concurso foi incrível. Ao longo do mês de junho, lancei mais algumas chamadas.

Finalmente, no dia 15 de julho, foi anunciado o vencedor do livro. A foto vencedora segue abaixo.

E na semana seguinte, consegui encontrar o Nilton para a entrega do livro.

 

diálogo com peter eisenman

O arquiteto e acadêmico argentino Julio Arroyo compartilhou no youtube uma entrevista muito interessante com Peter Eisenman, feita em abril de 2014, durante uma visita ao seu estúdio em Nova York.

A importância da construção de projetos como exemplos de suas idéias e pensamentos arquitetônicos, os problemas gerados pelos desenhos paramétricos, as novas tecnologias e meios de comunicação. Todas essas questões são debatidas na entrevista abaixo, traduzida para o português por Manuel Sá.

Julio Arroyo: Tenho quatro perguntas. Duas que olham para trás e duas para frente. Após 30 anos do "The End of Classical", onde você proclamou o fim das ficções, da representação, da razão e da história, que foram pontos de partida em sua teoria, gostaria de perguntar se confirma esse texto ou se tem outra idéia, afinal muito tempo se passou desde esse escrito.

Peter Eisenman: O problema da arquitetura ainda... as problemáticas continuam as mesmas, mais problematizadas hoje do que há 30 anos atrás. O fim do clássico e o fim da representação clássica geraram coisas fora do que eu disse na época, como a revolução digital e o fenômeno digital, por sua vez produzindo coisas para a arquitetura que sou totalmente antipático. Poderia argumentar que essas coisas também estão contra a representação clássica, etc. Então o que aconteceu com advento e surgimento da teoria do digital, o parametricismo, por exemplo, e coisas assim, que não eram nem consideradas há trinta anos.
O meu argumento poderia ser que essa pergunta não tem nenhuma relevância para mim enquanto problema atual no meu ensino ou prática.
Entretanto, encaro o problema do paramétrico, que não é tanto um problema para a representação, mas um problema de "como eu escolho alguma coisa."
Em outras palavras, se você pode fazer uma quantidade infinita de variáveis e possibilidades a partir de um algoritmo, Philippe Morel, dias atrás, em uma conferência, mostrou uma cadeira que ele desenhou com cinquenta mil interações diferentes. Perguntei para ele: "Philippe, como você escolhe?"

Eu não preciso de cinquenta mil cadeiras. Se digo "faça uma garrafa" e o estudante me mostra cinquenta mil tipos... não vou precisar de cinquenta mil garrafas para escolher.
O que estou dizendo é que o digital não fornece uma matriz de escolha, logo, não sei por qual base escolher.
Para mim o digital produziu uma situação onde quais valores de julgamento não possuem relação com o que escolho.
Meu texto seria diferente hoje. Que tal um texto sobre o fim da autoria, ou do único autor, ou o fim da notação, todos questionados pelo digital?

Julio Arroyo: Você acha que o digital é uma espécie de problema para a arquitetura atualmente?

Peter Eisenman: Grande problema. O paramétrico, que te dá a possibilidade de escolhas infinitas, de variáveis infinitas, em outras palavras, por que algo tem que ter uma forma x ou y, por que não pode ser apenas da forma x? Por quê?

Julio Arroyo: O problema é a falta de razão? De fundamentos?

Peter Eisenman: É a falta de razão. É necessário haver algo significativo para a disciplina de arquitetura. Se você diz "Construa uma casa para mim", "Construa uma igreja", "Construa uma fábrica", se essas construções não dizem nada sobre arquitetura, logo elas não possuem valor algum para mim.
Ao construir uma igreja, preciso ter algo a dizer não sobre igrejas, mas sobre arquitetura. Se isso não acontece, não tenho interesse.
Digamos que você sabe pintar, e você me mostra sua pintura com flores, uma paisagem, pode ser muito bonita, certo? Mas o que ela diz sobre Pintura? Não o tema específico, mas pintura.
Milhares de pessoas vão para os parques pintar, é tudo muito bonito, elas contam histórias, representam questões, mas será que dizem algo sobre pintar? Para mim esse é o critério.
Logo, a pergunta é: "O que significa dizer algo sobre Pintura?" Ou, "O que significa dizer algo sobre Arquitetura?"
Para isso você precisa voltar à história da arquitetura, porque se você vai dizer algo, precisa voltar aos precedentes, ao que aconteceu no passado. Por isso, para mim, a questão mais importante ao se pensar em arquitetura de hoje é: Sabemos algo sobre o comentário que estamos fazendo? Em outras palavras, estamos fazendo comentários a cerca de Borromini, Palladio ou Le Corbusier? O que estamos fazendo? Por que estamos fazendo qualquer coisa?

Julio Arroyo: Bem, a arquitetura paramétrica evita todo tipo de comentário a cerca da arquitetura...

Peter Eisenman: Obrigado! Eu sei. Esse é o meu problema. O grande problema não é apenas paramétrico, mas a fenomenologia paramétrica. Isso significa que as coisas interessantes a respeito da materialidade, superfícies, texturas, tudo o que envolve o paramétrico em si.

Julio Arroyo: OK, Mas existe uma corrente de opiniões que afirmam que o paramétrico, enquanto evita a representação, ao mesmo tempo permite que o arquiteto se introduza diretamente no objeto, sem nenhuma consideração a respeito do contexto.

Peter Eisenman: Sim, mas me interessa ir direto a disciplina. Não me interessa o uso dos objetos que não dizem nada a cerca da arquitetura.

Julio Arroyo: OK. Voltando a uma visão mais geral das últimas duas décadas, o que você pensa a respeito da arquitetura que propõe objetos como simples trechos colocados ali e do conceito acerca dessa arquitetura? Por que não existe um comprometimento maior?

Peter Eisenman: Manfredo Tafuri me disse: "Peter, ninguém vai se importar com suas idéias, teorias e conceitos se você não construir arquitetura." E eu acredito que isso é verdade.
Se não temos os artefatos, as coisas, sejam eles desenhos, modelos, edifícios, que sejam exemplos dessas idéias e pensamentos arquitetônicos, logo, idéias em si mesmas não serão boas. Por que eu digo isso? Cada arquiteto que tenho interesse, León Battista Alberti escreveu De Re Aedificatoria, e ai ele construiu. Aldo Rossi escreveu L'Architettura della Citta' e logo construiu. Robert Venturi escreveu Complexity and Contradiction in Architecture e construiu. Rem Koolhaas escreveu Delirious New York e construiu. Todo bom arquiteto escreveu, e você pode voltar para Palladio ou Serlio, Le Corbusier com Vers Une Architecture, foi antes de Poissy, Garches, etc. As idéias vem primeiro em um livro e logo vem a construção. Sem o livro, ninguém olharia para aquelas casinhas de Le Corbusier.
Palladio, por exemplo: Estive nas Villas, estou escrevendo um livro sobre Palladio nesse momento. Ninguém se importaria com essas Villas terríveis se não escrevesse Quattro Libri (1570).
Então a relação entre as idéias e o construído é muito importante e poucos grandes arquitetos sobreviveram sem as idéias. E as idéias devem acontecer primeiro, mas sem o edifício, as idéias não tem sentido.

Julio Arroyo: Olhando para o futuro.

Peter Eisenman: Sou péssimo ao olhar para o futuro!

Julio Arroyo: Sabemos que você não é um mago, mas considerando a arquitetura como campo de conhecimento e aos arquitetos como profissionais na prática, quais são os novos problemas que a arquitetura e os arquitetos terão de enfrentar?

Peter Eisenman: Um grande problema da arquitetura são os meios de comunicação. Existem muitas mídias de informação e todas são rápidas, são meios de comunicação rápidos. A arquitetura é uma comunicação lenta. Então, ter uma idéia arquitetônica, construir uma idéia arquitetônica... leva tempo. A mídia não consegue esperar. Ela precisa ter uma imagem imediatamente.
A mídia devora a arquitetura antes mesmo que a arquitetura aconteça. Eles precisam de um novo herói na mídia, nas redes sociais como blogs, twitter, facebook, etc.  A abundância das mídias fez da arquitetura, simultaneamente, algo mais importante e menos importante.
As pessoas nem olham mais para a arquitetura. Elas caminham nas ruas com seus iphones e fones de ouvido, a arquitetura é lenta demais para essas pessoas. Logo, é mais importante do que nunca termos uma arquitetura crítica, mas ao mesmo tempo é mais difiícil porque a maioria das pessoas não se preocupam com ela.
Em segundo lugar, acredito que a arquitetura, a boa arquitetura,  necessita do que chamo de atenção próxima, por parte do espectador. Walter Benjamin, no século passado, disse que a arquitetura era compreendida pelas pessoas em estado de distração. Acredito, ainda mais agora, que as pessoas não estão atentas, tem menos capacidade de atenção, e eles não se importam. Então necessitamos mais do que nunca de uma arquitetura que demande atenção próxima. E necessitamos de uma sociedade que seja capaz de ter essa atenção próxima.
Ou seja, quando formamos arquitetos, temos que ensinar para eles os problemas que os meios de comunicação tem criado não apenas para os arquitetos, mas para os clientes, e como superá-los. E, bem, não tenho a resposta, mas a arquitetura no futuro não se baseará no fato de podermos ou não produzir o digital, ou crowdsourcing, ou parametrismo, ou 50 mil interações de algo. O que precisamos entender é que tipo de arquitetura permitirá as pessoas, que não tem capacidade de prestar atenção, entenderem que tudo aquilo faz parte de uma maneira de viver mais rica e completa. E a arquitetura, mais do que nunca, é necessária para isso.
Na era da mídia, a arquitetura é mais importante e menos importante.

Julio Arroyo: Então existe uma série de novas sensibilidades para as pessoas e arquitetos que precisam ser enfrentadas.
O que acontece com os novos materiais, as nanotecnologias? Você tem alguma experiência nesse sentido?

Peter Eisenman: Minha arquitetura não depende dos materiais, depende dos espaços. Por isso que para mim, Alberti é o arquiteto mais importante da história da arquitetura, por ter sido o primeiro arquiteto a falar sobre o espaço.
Vitruvio não falou sobre o espaço, Brunelleschi não falou sobre o espaço. Alberti foi o primeiro arquiteto que falou sobre el spatium. Entre duas paredes, existe um ambiente. Para mim, você não precisa de novos materiais para produzir bons espaços. Posso produzir edifícios econômicos com materiais muito modestos: cimento, tijolos, pedras, etc. Não preciso de materiais elegantes e novos, plásticos, fibra de carbono, etc. Só preciso de materiais tradicionais, cimento, madeira, tijolos, aço.
Basicamente, o que eu disse, é que um dos problemas de hoje tem relação com a fenomenologia digital e a fenomenologia dos materiais, e acredito que seja um problema enorme para os arquitetos hoje.
Sou a favor de reduzir as escolhas, reduzir os materiais, reduzir as opções, porque não precisamos de tantas opções, não conseguimos dar conta de tanta variedade. Seria muito melhor se o Starbucks fizesse apenas um bom café. Tem um café perto do trabalho e eu prefiro, porque me dá um único e bom café.
Consigo toda a variedade que eu quiser no Starbucks, mas no café da esquina eu tenho um café melhor.

Julio Arroyo: Pode perceber os limites do espaço, entender onde está e conseguir referências, talvez até identidade. E sobre a filosofia e os pensadores contemporâneos? A filosofia hoje em dia ajuda a pensar a arquitetura, na sua opinião? Afinal você tem uma conexão com Derrida, Nietzsche e Foucault.

Peter Eisenman: Na verdade não. Ainda acredito que Derrida seja muito importante, ainda acredito que os temas que ele aborda são importantes para a arquitetura. Não preciso de outras filosofias hoje, estou perfeitamente satisfeito com Foucault, Derrida, Roland Barthes, etc
Não preciso de novos arquitetos. Temos Alberti, Palladio, Le Corbusier. Não preciso de nada novo, não estou interessado no novo.

Julio Arroyo: Entendo que você está tentando ser econômico.

Peter Eisenman: Na minha idade você precisa ser econômico. Não é muito decoroso. Quando você tem 80 anos, você não pode agir como se tivesse 20. Você não pode ser louco. Então é necessário aprender a ter 80 anos. Você não precisa agir como uma pessoa de 80 anos, mas você tem limites de tempo, de energia, e você não está tentando ser novo. Você está tentando ser bom.  Não preciso ser novo, preciso ser bom. Isso é o que importa para mim.
Não encontrei nenhuma filosofia desde o final do século XX que me interesse. Nos primeiros 10 ou 15 anos desse século, creio que não encontrei nada que me interesse.
Não me interessa Alain Badiou, Bruno Latour, ou o pensamento francês contemporâneo. Agamben é um filósofo interessante, gosto do Giorgio Agamben. Não há nada na filosofia americana que me interesse.
Acho que Borges, por exemplo, será que existe alguém melhor hoje, em termos da sensibilidade que ele falava sobre? Não encontrei ninguém melhor.
Entender a história, a literatura, a filosofia, e voltar a ler esses autores é muito importante. Dei uma conferência no México há dois dias e disse aos estudantes que eles não poderiam entender a arquitetura hoje sem ler os dois primeiros livros de Alberti no Dieci Libri. É necessário voltar e ler o livro um e o livro dois.  (De Aedificatoria 1443 - 1452)
Se não fizerem isso, nunca vão entender arquitetura. Depois, ai sim podem começar a pensar o que se passou entre Alberti e a contemporaneidade. mas sem ler Alberti, vocês não terão educação e me preocupa essa falta de educação.

arquitetônicas

É hoje! 

Lançamento do ARQUITETÔNICAS
Site de exposição e venda de fotografias autorais entra no ar em 29 de outubro de 2015 com seis séries inéditas

SÃO PAULO - No dia 29 de outubro de 2015 será lançado oficialmente o site ARQUITETÔNICAS, uma plataforma online de exposição e venda de fotografias de arquitetura em séries autorais. O conteúdo será organizado em edições trimestrais e a cada nova edição, novos fotógrafos serão convidados a participar com séries inéditas. Com uma política de valores mais acessíveis, as impressões - com qualidade fineart e tiragens limitadas - serão vendidas a partir de R$200,00.

Contrapondo a fotografia de arquitetura que se vê comumente - cujo objetivo principal é o registro de projetos -, a proposta em ARQUITETÔNICAS é reunir diferentes possibilidades de fricção entre a fotografia e a arquitetura, extrapolando o conceito restrito da arquitetura apenas enquanto edificação. As múltiplas séries fotográficas reunidas apontam - cada qual com sua especificidade - para diferentes visões de arquitetura enquanto atividade humana de organização de elementos em um espaço determinado.

A primeira edição de ARQUITETÔNICAS é composta por seis séries fotográficas - Praia Líquida, de André Souza; Verde 01, de Fran Parente; Aéreas, de Joana França; Hopperianas, de Manuel Sá; Corredores, de Pedro Vannucchi e Ceasa, de Ricardo AmadoNelas, são apresentadas diferentes facetas da materialização dos olhares desses fotógrafos quando desviados da representação tradicional de edificações, mostrando-se profundamente contaminados pela potência imagética do que é visto, levando em conta toda a sua linguagem arquitetural.

O resultado é um conjunto de visões de mundo embebidas de raciocínios geométricos, simetrias, quebras, ritmos, pausas, planos, camadas e pontos de fuga que reforçam o argumento de que a linguagem arquitetônica não se apresenta somente na imagem da edificação, mas sim em todo lado, da vastidão das paisagens naturais às minúcias dos sistemas organizacionais humanos.

http://www.arquitetonicas.com
https://instagram.com/arquitetonicas/
https://www.facebook.com/arquitetonicasfotografia

 

o vidro da apple

No dia 21 de maio aconteceu aqui em São Paulo a palestra do engenheiro estrutural James O'Callaghan, uma das maiores autoridades no uso do vidro estrutural e o responsável pelas icônicas lojas Apple.

Diretor do escritório Eckersley O'Callaghan, formado em engenharia pela Universidade de Manchester e membro do Instituto de Engenheiros Estruturais do Reino Unido e Hong Kong, James começou a apresentação mostrando o percurso histórico do vidro nos projetos arquitetônicos até o momento em que o material ganhou o caráter de ser, de fato, estrutural.

O escritório tem um princípio muito direto: Os efeitos desejados que o vidro transmite foram buscados desde os primeiros projetos, ou seja, nada de silicone estrutural, muito menos o uso do spider glass e estruturas metálicas de apoio. O objetivo é levar o vidro aos extremos da transparência, sem nada que diminua essa sensação.

Partindo de projetos menores que podem ser vistos no site da empresa, dois grandes momentos marcaram a apresentação:
O primeiro, é claro, foi o contato que James teve com o próprio Steve Jobs, no momento do desenvolvimento da escada de vidro da loja em São Francisco, onde o próprio Steve, ao ver o primeiro modelo, disse que estava horrível e pediu para James refazer o projeto, cuja patente final pode ser estudada aqui. Observando agora, pode parecer óbvio usar uma escada de vidro, mas em 2003 não havia nada parecido com o que foi feito. As escadas de vidro até então não possuiam vidro estrutural de fato. Todas as cargas eram distribuídas por componentes metálicos. O vidro estava lá, mas não era um componente essencial, estruturalmente falando.
Os motivos de Steve  vão de encontro ao básico da psicologia do varejo: é impossível não querer subir essa escada.
 

A escada final em São Francisco

A escada final em São Francisco

Detalhe da escada

Detalhe da escada

O outro momento fantástico da apresentação mostra como de fato sorte é o que acontece quando a preparação se encontra com oportunidades.
Quantas vezes durante a vida profissional de um arquiteto o seu cliente pede uma nova versão de um edifício por saber que é possível enxugar a quantidade de peças? Não muitas...
Mas foi isso que aconteceu quando Steve Jobs pediu uma nova versão da consagrada Apple Store da Quinta Avenida. É um desses trabalhos que só acontecem uma vez na vida, mostrando claramente que Steve possuía uma visão muito clara de como bom "design é menos design.", e por ter os meios para fazer, o fez sem hesitar.

Simplificação do Cubo da Quinta Avenida

Simplificação do Cubo da Quinta Avenida

Woah! Painéis de vidro estrutural apoiados e amarrados por perfis metálicos!

Woah! Painéis de vidro estrutural apoiados e amarrados por perfis metálicos!

James seguiu a palestra dando outros exemplos maravilhosos de como bom design caminha lado a lado com as possibilidades estruturais dos materiais e de como isso deve ser perseguido sempre, levando todas essas necessidades ao limite.
O exemplo onde ele passou a utilizar autoclaves de boings para desenvolver painéis de 15 metros de altura, como no caso da Apple Store da China, ou das escadas inicialmente com diversos painéis guarda-corpo ao ponto onde eles são peças únicas, foram percursos extremamente integrados entre designers / clientes / técnicas construtivas. Sorte de fato é preparação somada a oportunidades. Um brilhante trabalho!

Um único painel guarda corpo de vidro! Como não desejar subir essa escada?

Um único painel guarda corpo de vidro! Como não desejar subir essa escada?

 


koolhaas: projetando o processo projetual

Rem Koolhaas e seu escritório OMA criaram um método e prática capazes de lidar com um mundo ainda mais complexo de forma única. Quando perguntado sobre seus objetivos com sua prática projetual, Koolhaas respondeu: "Continuar pensando sobre o que a arquitetura poderia ser. O que eu poderia ser." 1

0) Introdução
Koolhaas co-fundou o OMA em 1975. Você deve ter ouvido falar dele através de livros como Delirious New York ou S,M,L,XL e projetos como o CCTV HQ, Casa da Música no Porto ou a Central Library em Seattle.

Não é fácil definir Koolhaas. Seus prédios podem ser encontrados por todo o mundo, mas é difícil reconhecer um prédio típico apenas por sua aparência visual. Para definir Koolhaas é necessário entrar em seu reino, deixar de lado o mundo de tijolos e aço e entrar no mundo das imagens, modelos e processos, um mundo de idéias. Não o que é, mas o que poderia ser.

Seus prédios e livros tem, entretanto, algo que os fazem reconhecíveis enquanto produtos do OMA. Um produto extremamente influenciado pelo processo de criação, laborioso, guiado por pesquisas que questionam tudo. Seus produtos são montagens, onde Koolhaas se nega a dar respostas fáceis, revelando uma seleção de evidências e demandas dos espectadores para formar suas próprias interpretações.

A grande realização de Koolhaas é, portanto, não o edifício ou o livro, mas um sistema que é capaz de colher, questionar e produzir idéias. O que Koolhaas tem construído é uma imensa versão dele próprio, um sistema que, através de um método de pesquisa e construção, é capaz de criar idéias belas e inteligentes sobre como o mundo poderia ser. Nesse artigo, gostaria de discutir o sistema que Koolhaas tem construído para chegar nessa posição e como ele consegue ficar sempre à frente.

1) Observação
A maneira mais fácil de descobrir novas idéias é estar em regiões onde a vida está se transformando rapidamente. Koolhaas e seu time tem trabalhado numa estrutura que é capaz de pesquisar o mundo por oportunidades onde mudanças acontecem mais rápido, onde algumas rupturas podem ser feitas. Alguns lugares, como os centros históricos de cidades europeias, pouco mudaram ao longo dos séculos, enquanto que outros lugares como Beijing, Dubai ou Laos parecem se reconstruir em anos. Como ele declarou: "Nós definimos uma agenda, e dai nós observamos o momento atual e percebemos onde e de que maneira nós poderíamos fazer certas rupturas e isso é algo completamente independente de fazer uma constante sequência de projetos arquitetônicos." 2

Em 1998, o OMA fez uma série de pesquisas e criaram uma abordagem mais explícita ao desenvolverem um departamento de pesquisa especializado think-tank, que lida com o aspecto não edificado da arquitetura. AMO é focado em pesquisa, publicações e mostras. Através dessas pesquisas, o OMA consegue estar presente na cena antes que a cena aconteça.

Muito antes que Koolhaas o construtor apareça, Koolhaas o escritor já está lá. No seu papel de professor em Harvard, ele explorou o Pearl Delta antes do pedido para construir pela CCTV. Antes de propor um plano de infraestrutura em Dubai, o manual já estava publicado. Antes de trabalhar com a Prada, sua pesquisa sobre compras já estava disponível no formato de livro.

Novas idéias são criadas mais facilmente num contexto de idéias jovens. Não é atoa que que o AMO e Koolhaas, através de seus projetos de pesquisa, podem ser encontrados em muitas economias emergentes do mundo.

pesquisa e criação

pesquisa e criação

2) A prática do escritório
Outra maneira que Koolhaas se difere dos seus competidores é na maneira como seu escritório é administrado. Koolhaas não aparece com um plano diretor que então é refinado por seus arquitetos. Ao contrário, sua prática é definida por uma enorme liberdade em materiais, métodos, e horas de trabalho. As respostas não são dadas pela autoridade. O que Koolhaas fornece é a pergunta e não a resposta.

"O foco do processo OMA não é o criador, mas o crítico. Na nossa maneira de trabalhar, a pessoa importante é aquela que é apresentada para uma série de opções e dai faz uma decisão crítica. O resultado é uma arquitetura melhor." 3

Essa prática de evitar respostas prontas corre profundamente no OMA, pode ser encontrado até mesmo na maneira como os materiais são escolhidos. Kunlé Adeyemi diz: "É claro que é mais fácil usar materiais que estão na estante ou catálogo, mas não estaríamos inovando se fizéssemos isso. Então, desenvolvemos nossos próprios materiais, desenvolvemos novas estruturas." 4

 Outro aspecto dessa liberdade é a maneira como os empregados podem usar o tempo, sendo produtivos sem necessitarem de horas fixas de trabalho. Como Mark Veldman disse "Você pode ir ou pode ficar a noite inteira. Você tem liberdade para continuar o trabalho." 5

Por último, o medo de se tornar previsível e estagnado é refletido até no momento de contratar. "Nós realmente queremos que todo ano, pelo menos 25% do nosso pessoal deve ser novo. Queremos que sejam jovens e inteligentes." 6

Para que Koolhaas possa desvendar novas idéias, o OMA é baseado na regeneração. Mesmo que Koolhaas em seus 30 anos de serviços, seja um fator constante, é seu constante trabalho de auto crítica e crítica sobre o mundo que se tornam a chave para o processo projetual.

maquetes

maquetes


3) Modelos
Modelos possuem um papel crucial no processo projetual do OMA. Produzidos em grandes quantidades, eles funcionam como um contêiner de idéias e restrições. Por causa de suas formas, eles criam um impacto imediato, sem necessidade de ir por longos documentos, um modelo é uma entidade que permite facilitar experimentos. "Ao possuir uma mente criativa, você tem um monte de idéias. O produto de luxo é o fato de que nós podemos testar todas elas. É claro que é um desperdício, mas é exatamente isso que torna o produto luxuoso." 7

Até mesmo centenas de idéias são transformadas em apresentações, diagramas e modelos que, através de um processo de crítica constante, aos poucos se transformam num plano final.

Uma das conquistas do OMA é gerenciar um negócio rentável ao passo que se permite gerar uma enorme quantidade de "desperdício" como insumo para criação. Esse método de trabalho também ofusca a distinção entre pesquisa, conceito e fases projetuais. Nesses mundos, a informação que veio de fora cresce aos poucos para um plano que pode transformar o futuro. Como Albena Yaneva disse "Manhattan, Seattle, Cordoba, são de fato trazidos para o escritório; suas vidas são dispostas na prática do escritório." 9

O playground de idéias é construído através da mistura das demandas dos clientes, o entorno, leis e orçamentos, mas também oportunidades, ideias e sonhos. Uma circulação sem fim, idéias se transformam em formas e formas em idéias. 

A feitura de maquetes no escritórios permite que o escritório brinque com questões geralmente contraditórias. Maquetes e livros transformam restrições e idéias em representações físicas e visuais que podem ser usadas como blocos construtivos para criarem novos mundos . "Cada maquete tem alguma coisa. Não dá pra dizer exatamente o que é, uma composição de coisas, materiais, sei lá. Dessa maneira, elas acomodam demandas, restrições, história, programa, zoneamentos, tipologias, estrutura e cobertura, sistemas mecânicos e elétricos, assim como uma série de preocupações humanas - experiências e demandas, todas elas traduzidas e transplantadas em uma entidade, a maquete." 10
Assim, cada maquete reflete o escritório como um todo, uma coleção de artefatos mutaveis, sempre em fluxo para se tornarem mais refinados, idéias inteligentes de como o mundo poderia ser.

archives.jpg

4) Acervo
"Dez anos atrás, o Instituto de Arquitetura da Holanda propôs adquirir o acervo do OMA. Eles enviaram um historiador de arte por quatro meses para fazer um inventório de todos os items. Quando o trabalho terminou, o OMA decidiu não vender e contrataram o historiador de arte como arquivista." 11 

Outro motivo que justifica esse processo é a abilidade do OMA se reciclar. "Arquivar modelos permite aos arquitetos manter os vestígios de criatividade por um maior período de tempo. Acessar esses modelos significa que eles podem redescobrir traços de intenções projetuais que ficaram intactos." 12

Rem-Koolhaas--OMA-Book-Ma-005.jpg

5) Livros
O OMA também é uma máquina de produção de livros e ele são utilizados em todas as etapas do processo projetual, seja na documentação de pesquisas, fases de projeto ou demonstração de resultados.

"Usamos diagramas bem inocentes, como aqueles desenhos de livros infantis. Usamos muito tempo fazendo livros, que é também parte da apresentação. Dessa maneira também deixamos as coisas mais claras para nós mesmos." 14

"Como as mesas de maquetes, livros são resumos do processo projetual que possibilitam traçar a trajetória material de um projeto. Eles guardam traços de exploração, e apresentam o resultado da experimentação projetual. Como as mesas, eles permitem que os arquitetos voltem atrás e repensem os movimentos projetuais feitos anteriormente." 15

Livros possuem um papel duplo no OMA, usados tanto para iniciar quanto para finalizar projetos. Le Corbusier ou Buckminster Fuller já combinaram arquitetura e escrita, mas nenhuma outra firma conseguiu administrar livros e construir edifícios na escala do OMA.

6) Conclusão
O processo que Koolhaas usa para descobrir o futuro antes que qualquer outro o faça é através da habilidade de trazer novas idéias mais rápido e conseguir manter um nível de complexidade dentro do estúdio e em cada projeto.

A maior realização do escritório é a criação de uma estrutura capaz de produzir um fluxo constante de idéias. "A maior parte do nosso trabalho para concursos e ofertas de trabalho desaparece automaticamente. Nenhuma outra profissão aceitaria tais condições. Mas você não pode olhar para esses projetos como lixo. Eles são idéias e vão sobreviver nos livros." 16

Alguém poderia suspeitar que Koolhaas constrói edifícios para ter algo para falar nos livros, e essa é sua conclusão numa entrevista de 2004. "Talvez a arquitetura não precise ser estúpida, afinal de contas. Liberada da obrigação de construir, ela pode se tornar uma maneira de pensar a respeito de qualquer coisa - uma disciplina que pode representar relações, proporções, conexões, efeitos, o diagrama de tudo." 17

 

 

 

Referências
rem koolhaas, index magazine, 2000
2 oma in conversation, barbican, 2011
3 intelligent design, the new yorker daniel zalewsky
4 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 80
5 inside oma, william wiles, icon, page 146
6 inside oma, william wiles
7 akkaoui, inside oma, william wiles, page 149
8 inside oma, william wiles, page 146
9 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 85
10 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 56
11 oma/progress, barbican free guide
12 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 65
13 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 86
14 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 33
15 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 72
16 interview with rem koolhaas, der spiegel
17 content, rem koolhaas, 2004