koolhaas: projetando o processo projetual

Rem Koolhaas e seu escritório OMA criaram um método e prática capazes de lidar com um mundo ainda mais complexo de forma única. Quando perguntado sobre seus objetivos com sua prática projetual, Koolhaas respondeu: "Continuar pensando sobre o que a arquitetura poderia ser. O que eu poderia ser." 1

0) Introdução
Koolhaas co-fundou o OMA em 1975. Você deve ter ouvido falar dele através de livros como Delirious New York ou S,M,L,XL e projetos como o CCTV HQ, Casa da Música no Porto ou a Central Library em Seattle.

Não é fácil definir Koolhaas. Seus prédios podem ser encontrados por todo o mundo, mas é difícil reconhecer um prédio típico apenas por sua aparência visual. Para definir Koolhaas é necessário entrar em seu reino, deixar de lado o mundo de tijolos e aço e entrar no mundo das imagens, modelos e processos, um mundo de idéias. Não o que é, mas o que poderia ser.

Seus prédios e livros tem, entretanto, algo que os fazem reconhecíveis enquanto produtos do OMA. Um produto extremamente influenciado pelo processo de criação, laborioso, guiado por pesquisas que questionam tudo. Seus produtos são montagens, onde Koolhaas se nega a dar respostas fáceis, revelando uma seleção de evidências e demandas dos espectadores para formar suas próprias interpretações.

A grande realização de Koolhaas é, portanto, não o edifício ou o livro, mas um sistema que é capaz de colher, questionar e produzir idéias. O que Koolhaas tem construído é uma imensa versão dele próprio, um sistema que, através de um método de pesquisa e construção, é capaz de criar idéias belas e inteligentes sobre como o mundo poderia ser. Nesse artigo, gostaria de discutir o sistema que Koolhaas tem construído para chegar nessa posição e como ele consegue ficar sempre à frente.

1) Observação
A maneira mais fácil de descobrir novas idéias é estar em regiões onde a vida está se transformando rapidamente. Koolhaas e seu time tem trabalhado numa estrutura que é capaz de pesquisar o mundo por oportunidades onde mudanças acontecem mais rápido, onde algumas rupturas podem ser feitas. Alguns lugares, como os centros históricos de cidades europeias, pouco mudaram ao longo dos séculos, enquanto que outros lugares como Beijing, Dubai ou Laos parecem se reconstruir em anos. Como ele declarou: "Nós definimos uma agenda, e dai nós observamos o momento atual e percebemos onde e de que maneira nós poderíamos fazer certas rupturas e isso é algo completamente independente de fazer uma constante sequência de projetos arquitetônicos." 2

Em 1998, o OMA fez uma série de pesquisas e criaram uma abordagem mais explícita ao desenvolverem um departamento de pesquisa especializado think-tank, que lida com o aspecto não edificado da arquitetura. AMO é focado em pesquisa, publicações e mostras. Através dessas pesquisas, o OMA consegue estar presente na cena antes que a cena aconteça.

Muito antes que Koolhaas o construtor apareça, Koolhaas o escritor já está lá. No seu papel de professor em Harvard, ele explorou o Pearl Delta antes do pedido para construir pela CCTV. Antes de propor um plano de infraestrutura em Dubai, o manual já estava publicado. Antes de trabalhar com a Prada, sua pesquisa sobre compras já estava disponível no formato de livro.

Novas idéias são criadas mais facilmente num contexto de idéias jovens. Não é atoa que que o AMO e Koolhaas, através de seus projetos de pesquisa, podem ser encontrados em muitas economias emergentes do mundo.

pesquisa e criação

pesquisa e criação

2) A prática do escritório
Outra maneira que Koolhaas se difere dos seus competidores é na maneira como seu escritório é administrado. Koolhaas não aparece com um plano diretor que então é refinado por seus arquitetos. Ao contrário, sua prática é definida por uma enorme liberdade em materiais, métodos, e horas de trabalho. As respostas não são dadas pela autoridade. O que Koolhaas fornece é a pergunta e não a resposta.

"O foco do processo OMA não é o criador, mas o crítico. Na nossa maneira de trabalhar, a pessoa importante é aquela que é apresentada para uma série de opções e dai faz uma decisão crítica. O resultado é uma arquitetura melhor." 3

Essa prática de evitar respostas prontas corre profundamente no OMA, pode ser encontrado até mesmo na maneira como os materiais são escolhidos. Kunlé Adeyemi diz: "É claro que é mais fácil usar materiais que estão na estante ou catálogo, mas não estaríamos inovando se fizéssemos isso. Então, desenvolvemos nossos próprios materiais, desenvolvemos novas estruturas." 4

 Outro aspecto dessa liberdade é a maneira como os empregados podem usar o tempo, sendo produtivos sem necessitarem de horas fixas de trabalho. Como Mark Veldman disse "Você pode ir ou pode ficar a noite inteira. Você tem liberdade para continuar o trabalho." 5

Por último, o medo de se tornar previsível e estagnado é refletido até no momento de contratar. "Nós realmente queremos que todo ano, pelo menos 25% do nosso pessoal deve ser novo. Queremos que sejam jovens e inteligentes." 6

Para que Koolhaas possa desvendar novas idéias, o OMA é baseado na regeneração. Mesmo que Koolhaas em seus 30 anos de serviços, seja um fator constante, é seu constante trabalho de auto crítica e crítica sobre o mundo que se tornam a chave para o processo projetual.

maquetes

maquetes


3) Modelos
Modelos possuem um papel crucial no processo projetual do OMA. Produzidos em grandes quantidades, eles funcionam como um contêiner de idéias e restrições. Por causa de suas formas, eles criam um impacto imediato, sem necessidade de ir por longos documentos, um modelo é uma entidade que permite facilitar experimentos. "Ao possuir uma mente criativa, você tem um monte de idéias. O produto de luxo é o fato de que nós podemos testar todas elas. É claro que é um desperdício, mas é exatamente isso que torna o produto luxuoso." 7

Até mesmo centenas de idéias são transformadas em apresentações, diagramas e modelos que, através de um processo de crítica constante, aos poucos se transformam num plano final.

Uma das conquistas do OMA é gerenciar um negócio rentável ao passo que se permite gerar uma enorme quantidade de "desperdício" como insumo para criação. Esse método de trabalho também ofusca a distinção entre pesquisa, conceito e fases projetuais. Nesses mundos, a informação que veio de fora cresce aos poucos para um plano que pode transformar o futuro. Como Albena Yaneva disse "Manhattan, Seattle, Cordoba, são de fato trazidos para o escritório; suas vidas são dispostas na prática do escritório." 9

O playground de idéias é construído através da mistura das demandas dos clientes, o entorno, leis e orçamentos, mas também oportunidades, ideias e sonhos. Uma circulação sem fim, idéias se transformam em formas e formas em idéias. 

A feitura de maquetes no escritórios permite que o escritório brinque com questões geralmente contraditórias. Maquetes e livros transformam restrições e idéias em representações físicas e visuais que podem ser usadas como blocos construtivos para criarem novos mundos . "Cada maquete tem alguma coisa. Não dá pra dizer exatamente o que é, uma composição de coisas, materiais, sei lá. Dessa maneira, elas acomodam demandas, restrições, história, programa, zoneamentos, tipologias, estrutura e cobertura, sistemas mecânicos e elétricos, assim como uma série de preocupações humanas - experiências e demandas, todas elas traduzidas e transplantadas em uma entidade, a maquete." 10
Assim, cada maquete reflete o escritório como um todo, uma coleção de artefatos mutaveis, sempre em fluxo para se tornarem mais refinados, idéias inteligentes de como o mundo poderia ser.

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4) Acervo
"Dez anos atrás, o Instituto de Arquitetura da Holanda propôs adquirir o acervo do OMA. Eles enviaram um historiador de arte por quatro meses para fazer um inventório de todos os items. Quando o trabalho terminou, o OMA decidiu não vender e contrataram o historiador de arte como arquivista." 11 

Outro motivo que justifica esse processo é a abilidade do OMA se reciclar. "Arquivar modelos permite aos arquitetos manter os vestígios de criatividade por um maior período de tempo. Acessar esses modelos significa que eles podem redescobrir traços de intenções projetuais que ficaram intactos." 12

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5) Livros
O OMA também é uma máquina de produção de livros e ele são utilizados em todas as etapas do processo projetual, seja na documentação de pesquisas, fases de projeto ou demonstração de resultados.

"Usamos diagramas bem inocentes, como aqueles desenhos de livros infantis. Usamos muito tempo fazendo livros, que é também parte da apresentação. Dessa maneira também deixamos as coisas mais claras para nós mesmos." 14

"Como as mesas de maquetes, livros são resumos do processo projetual que possibilitam traçar a trajetória material de um projeto. Eles guardam traços de exploração, e apresentam o resultado da experimentação projetual. Como as mesas, eles permitem que os arquitetos voltem atrás e repensem os movimentos projetuais feitos anteriormente." 15

Livros possuem um papel duplo no OMA, usados tanto para iniciar quanto para finalizar projetos. Le Corbusier ou Buckminster Fuller já combinaram arquitetura e escrita, mas nenhuma outra firma conseguiu administrar livros e construir edifícios na escala do OMA.

6) Conclusão
O processo que Koolhaas usa para descobrir o futuro antes que qualquer outro o faça é através da habilidade de trazer novas idéias mais rápido e conseguir manter um nível de complexidade dentro do estúdio e em cada projeto.

A maior realização do escritório é a criação de uma estrutura capaz de produzir um fluxo constante de idéias. "A maior parte do nosso trabalho para concursos e ofertas de trabalho desaparece automaticamente. Nenhuma outra profissão aceitaria tais condições. Mas você não pode olhar para esses projetos como lixo. Eles são idéias e vão sobreviver nos livros." 16

Alguém poderia suspeitar que Koolhaas constrói edifícios para ter algo para falar nos livros, e essa é sua conclusão numa entrevista de 2004. "Talvez a arquitetura não precise ser estúpida, afinal de contas. Liberada da obrigação de construir, ela pode se tornar uma maneira de pensar a respeito de qualquer coisa - uma disciplina que pode representar relações, proporções, conexões, efeitos, o diagrama de tudo." 17

 

 

 

Referências
rem koolhaas, index magazine, 2000
2 oma in conversation, barbican, 2011
3 intelligent design, the new yorker daniel zalewsky
4 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 80
5 inside oma, william wiles, icon, page 146
6 inside oma, william wiles
7 akkaoui, inside oma, william wiles, page 149
8 inside oma, william wiles, page 146
9 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 85
10 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 56
11 oma/progress, barbican free guide
12 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 65
13 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 86
14 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 33
15 made by the office for metropolitan architecture: an ethnography of design, albena yaneva, page 72
16 interview with rem koolhaas, der spiegel
17 content, rem koolhaas, 2004