diálogo com peter eisenman

O arquiteto e acadêmico argentino Julio Arroyo compartilhou no youtube uma entrevista muito interessante com Peter Eisenman, feita em abril de 2014, durante uma visita ao seu estúdio em Nova York.

A importância da construção de projetos como exemplos de suas idéias e pensamentos arquitetônicos, os problemas gerados pelos desenhos paramétricos, as novas tecnologias e meios de comunicação. Todas essas questões são debatidas na entrevista abaixo, traduzida para o português por Manuel Sá.

Julio Arroyo: Tenho quatro perguntas. Duas que olham para trás e duas para frente. Após 30 anos do "The End of Classical", onde você proclamou o fim das ficções, da representação, da razão e da história, que foram pontos de partida em sua teoria, gostaria de perguntar se confirma esse texto ou se tem outra idéia, afinal muito tempo se passou desde esse escrito.

Peter Eisenman: O problema da arquitetura ainda... as problemáticas continuam as mesmas, mais problematizadas hoje do que há 30 anos atrás. O fim do clássico e o fim da representação clássica geraram coisas fora do que eu disse na época, como a revolução digital e o fenômeno digital, por sua vez produzindo coisas para a arquitetura que sou totalmente antipático. Poderia argumentar que essas coisas também estão contra a representação clássica, etc. Então o que aconteceu com advento e surgimento da teoria do digital, o parametricismo, por exemplo, e coisas assim, que não eram nem consideradas há trinta anos.
O meu argumento poderia ser que essa pergunta não tem nenhuma relevância para mim enquanto problema atual no meu ensino ou prática.
Entretanto, encaro o problema do paramétrico, que não é tanto um problema para a representação, mas um problema de "como eu escolho alguma coisa."
Em outras palavras, se você pode fazer uma quantidade infinita de variáveis e possibilidades a partir de um algoritmo, Philippe Morel, dias atrás, em uma conferência, mostrou uma cadeira que ele desenhou com cinquenta mil interações diferentes. Perguntei para ele: "Philippe, como você escolhe?"

Eu não preciso de cinquenta mil cadeiras. Se digo "faça uma garrafa" e o estudante me mostra cinquenta mil tipos... não vou precisar de cinquenta mil garrafas para escolher.
O que estou dizendo é que o digital não fornece uma matriz de escolha, logo, não sei por qual base escolher.
Para mim o digital produziu uma situação onde quais valores de julgamento não possuem relação com o que escolho.
Meu texto seria diferente hoje. Que tal um texto sobre o fim da autoria, ou do único autor, ou o fim da notação, todos questionados pelo digital?

Julio Arroyo: Você acha que o digital é uma espécie de problema para a arquitetura atualmente?

Peter Eisenman: Grande problema. O paramétrico, que te dá a possibilidade de escolhas infinitas, de variáveis infinitas, em outras palavras, por que algo tem que ter uma forma x ou y, por que não pode ser apenas da forma x? Por quê?

Julio Arroyo: O problema é a falta de razão? De fundamentos?

Peter Eisenman: É a falta de razão. É necessário haver algo significativo para a disciplina de arquitetura. Se você diz "Construa uma casa para mim", "Construa uma igreja", "Construa uma fábrica", se essas construções não dizem nada sobre arquitetura, logo elas não possuem valor algum para mim.
Ao construir uma igreja, preciso ter algo a dizer não sobre igrejas, mas sobre arquitetura. Se isso não acontece, não tenho interesse.
Digamos que você sabe pintar, e você me mostra sua pintura com flores, uma paisagem, pode ser muito bonita, certo? Mas o que ela diz sobre Pintura? Não o tema específico, mas pintura.
Milhares de pessoas vão para os parques pintar, é tudo muito bonito, elas contam histórias, representam questões, mas será que dizem algo sobre pintar? Para mim esse é o critério.
Logo, a pergunta é: "O que significa dizer algo sobre Pintura?" Ou, "O que significa dizer algo sobre Arquitetura?"
Para isso você precisa voltar à história da arquitetura, porque se você vai dizer algo, precisa voltar aos precedentes, ao que aconteceu no passado. Por isso, para mim, a questão mais importante ao se pensar em arquitetura de hoje é: Sabemos algo sobre o comentário que estamos fazendo? Em outras palavras, estamos fazendo comentários a cerca de Borromini, Palladio ou Le Corbusier? O que estamos fazendo? Por que estamos fazendo qualquer coisa?

Julio Arroyo: Bem, a arquitetura paramétrica evita todo tipo de comentário a cerca da arquitetura...

Peter Eisenman: Obrigado! Eu sei. Esse é o meu problema. O grande problema não é apenas paramétrico, mas a fenomenologia paramétrica. Isso significa que as coisas interessantes a respeito da materialidade, superfícies, texturas, tudo o que envolve o paramétrico em si.

Julio Arroyo: OK, Mas existe uma corrente de opiniões que afirmam que o paramétrico, enquanto evita a representação, ao mesmo tempo permite que o arquiteto se introduza diretamente no objeto, sem nenhuma consideração a respeito do contexto.

Peter Eisenman: Sim, mas me interessa ir direto a disciplina. Não me interessa o uso dos objetos que não dizem nada a cerca da arquitetura.

Julio Arroyo: OK. Voltando a uma visão mais geral das últimas duas décadas, o que você pensa a respeito da arquitetura que propõe objetos como simples trechos colocados ali e do conceito acerca dessa arquitetura? Por que não existe um comprometimento maior?

Peter Eisenman: Manfredo Tafuri me disse: "Peter, ninguém vai se importar com suas idéias, teorias e conceitos se você não construir arquitetura." E eu acredito que isso é verdade.
Se não temos os artefatos, as coisas, sejam eles desenhos, modelos, edifícios, que sejam exemplos dessas idéias e pensamentos arquitetônicos, logo, idéias em si mesmas não serão boas. Por que eu digo isso? Cada arquiteto que tenho interesse, León Battista Alberti escreveu De Re Aedificatoria, e ai ele construiu. Aldo Rossi escreveu L'Architettura della Citta' e logo construiu. Robert Venturi escreveu Complexity and Contradiction in Architecture e construiu. Rem Koolhaas escreveu Delirious New York e construiu. Todo bom arquiteto escreveu, e você pode voltar para Palladio ou Serlio, Le Corbusier com Vers Une Architecture, foi antes de Poissy, Garches, etc. As idéias vem primeiro em um livro e logo vem a construção. Sem o livro, ninguém olharia para aquelas casinhas de Le Corbusier.
Palladio, por exemplo: Estive nas Villas, estou escrevendo um livro sobre Palladio nesse momento. Ninguém se importaria com essas Villas terríveis se não escrevesse Quattro Libri (1570).
Então a relação entre as idéias e o construído é muito importante e poucos grandes arquitetos sobreviveram sem as idéias. E as idéias devem acontecer primeiro, mas sem o edifício, as idéias não tem sentido.

Julio Arroyo: Olhando para o futuro.

Peter Eisenman: Sou péssimo ao olhar para o futuro!

Julio Arroyo: Sabemos que você não é um mago, mas considerando a arquitetura como campo de conhecimento e aos arquitetos como profissionais na prática, quais são os novos problemas que a arquitetura e os arquitetos terão de enfrentar?

Peter Eisenman: Um grande problema da arquitetura são os meios de comunicação. Existem muitas mídias de informação e todas são rápidas, são meios de comunicação rápidos. A arquitetura é uma comunicação lenta. Então, ter uma idéia arquitetônica, construir uma idéia arquitetônica... leva tempo. A mídia não consegue esperar. Ela precisa ter uma imagem imediatamente.
A mídia devora a arquitetura antes mesmo que a arquitetura aconteça. Eles precisam de um novo herói na mídia, nas redes sociais como blogs, twitter, facebook, etc.  A abundância das mídias fez da arquitetura, simultaneamente, algo mais importante e menos importante.
As pessoas nem olham mais para a arquitetura. Elas caminham nas ruas com seus iphones e fones de ouvido, a arquitetura é lenta demais para essas pessoas. Logo, é mais importante do que nunca termos uma arquitetura crítica, mas ao mesmo tempo é mais difiícil porque a maioria das pessoas não se preocupam com ela.
Em segundo lugar, acredito que a arquitetura, a boa arquitetura,  necessita do que chamo de atenção próxima, por parte do espectador. Walter Benjamin, no século passado, disse que a arquitetura era compreendida pelas pessoas em estado de distração. Acredito, ainda mais agora, que as pessoas não estão atentas, tem menos capacidade de atenção, e eles não se importam. Então necessitamos mais do que nunca de uma arquitetura que demande atenção próxima. E necessitamos de uma sociedade que seja capaz de ter essa atenção próxima.
Ou seja, quando formamos arquitetos, temos que ensinar para eles os problemas que os meios de comunicação tem criado não apenas para os arquitetos, mas para os clientes, e como superá-los. E, bem, não tenho a resposta, mas a arquitetura no futuro não se baseará no fato de podermos ou não produzir o digital, ou crowdsourcing, ou parametrismo, ou 50 mil interações de algo. O que precisamos entender é que tipo de arquitetura permitirá as pessoas, que não tem capacidade de prestar atenção, entenderem que tudo aquilo faz parte de uma maneira de viver mais rica e completa. E a arquitetura, mais do que nunca, é necessária para isso.
Na era da mídia, a arquitetura é mais importante e menos importante.

Julio Arroyo: Então existe uma série de novas sensibilidades para as pessoas e arquitetos que precisam ser enfrentadas.
O que acontece com os novos materiais, as nanotecnologias? Você tem alguma experiência nesse sentido?

Peter Eisenman: Minha arquitetura não depende dos materiais, depende dos espaços. Por isso que para mim, Alberti é o arquiteto mais importante da história da arquitetura, por ter sido o primeiro arquiteto a falar sobre o espaço.
Vitruvio não falou sobre o espaço, Brunelleschi não falou sobre o espaço. Alberti foi o primeiro arquiteto que falou sobre el spatium. Entre duas paredes, existe um ambiente. Para mim, você não precisa de novos materiais para produzir bons espaços. Posso produzir edifícios econômicos com materiais muito modestos: cimento, tijolos, pedras, etc. Não preciso de materiais elegantes e novos, plásticos, fibra de carbono, etc. Só preciso de materiais tradicionais, cimento, madeira, tijolos, aço.
Basicamente, o que eu disse, é que um dos problemas de hoje tem relação com a fenomenologia digital e a fenomenologia dos materiais, e acredito que seja um problema enorme para os arquitetos hoje.
Sou a favor de reduzir as escolhas, reduzir os materiais, reduzir as opções, porque não precisamos de tantas opções, não conseguimos dar conta de tanta variedade. Seria muito melhor se o Starbucks fizesse apenas um bom café. Tem um café perto do trabalho e eu prefiro, porque me dá um único e bom café.
Consigo toda a variedade que eu quiser no Starbucks, mas no café da esquina eu tenho um café melhor.

Julio Arroyo: Pode perceber os limites do espaço, entender onde está e conseguir referências, talvez até identidade. E sobre a filosofia e os pensadores contemporâneos? A filosofia hoje em dia ajuda a pensar a arquitetura, na sua opinião? Afinal você tem uma conexão com Derrida, Nietzsche e Foucault.

Peter Eisenman: Na verdade não. Ainda acredito que Derrida seja muito importante, ainda acredito que os temas que ele aborda são importantes para a arquitetura. Não preciso de outras filosofias hoje, estou perfeitamente satisfeito com Foucault, Derrida, Roland Barthes, etc
Não preciso de novos arquitetos. Temos Alberti, Palladio, Le Corbusier. Não preciso de nada novo, não estou interessado no novo.

Julio Arroyo: Entendo que você está tentando ser econômico.

Peter Eisenman: Na minha idade você precisa ser econômico. Não é muito decoroso. Quando você tem 80 anos, você não pode agir como se tivesse 20. Você não pode ser louco. Então é necessário aprender a ter 80 anos. Você não precisa agir como uma pessoa de 80 anos, mas você tem limites de tempo, de energia, e você não está tentando ser novo. Você está tentando ser bom.  Não preciso ser novo, preciso ser bom. Isso é o que importa para mim.
Não encontrei nenhuma filosofia desde o final do século XX que me interesse. Nos primeiros 10 ou 15 anos desse século, creio que não encontrei nada que me interesse.
Não me interessa Alain Badiou, Bruno Latour, ou o pensamento francês contemporâneo. Agamben é um filósofo interessante, gosto do Giorgio Agamben. Não há nada na filosofia americana que me interesse.
Acho que Borges, por exemplo, será que existe alguém melhor hoje, em termos da sensibilidade que ele falava sobre? Não encontrei ninguém melhor.
Entender a história, a literatura, a filosofia, e voltar a ler esses autores é muito importante. Dei uma conferência no México há dois dias e disse aos estudantes que eles não poderiam entender a arquitetura hoje sem ler os dois primeiros livros de Alberti no Dieci Libri. É necessário voltar e ler o livro um e o livro dois.  (De Aedificatoria 1443 - 1452)
Se não fizerem isso, nunca vão entender arquitetura. Depois, ai sim podem começar a pensar o que se passou entre Alberti e a contemporaneidade. mas sem ler Alberti, vocês não terão educação e me preocupa essa falta de educação.